sábado, 5 de julho de 2008

As dores do belo

“Diante do belo, o silêncio.” O pensamento do mestre Rubem Alves talvez possa explicar por que grandiosos espetáculos humanos tenham seu desfecho marcado pela dor do silêncio. Digo talvez porque o pensamento anterior refere-se ao fato de que as palavras tornam-se insignificantes diante de algo que deixe os olhos em estado de graça, mediante a beleza explicitada. Assim, o belo requer o silêncio.

“Os deuses vendem quando dão/ Compra-se a glória com a desgraça...”, sentencia Fernando Pessoa em ‘Mensagem’. Os ‘deuses do futebol’ ofertaram ao público brasileiro (carioca, em especial) o estádio Mário Filho, o Maracanã, um templo em que, por inúmeras vezes, multidões entoaram e ainda entoam diversificadas canções de amor aos seus clubes e/ou à sua seleção e, por outras vezes, amargaram a mais injusta, inexplicável e sofrida derrota.

O que dizer da fatídica derrota da seleção brasileira, com um Maracanã beirando as 200 mil pessoas, na final da Copa de 50, diante do Uruguai? Ainda hoje o ‘Maracanazo’ é considerado o ápice de nossas tragédias esportivas. Será que flamenguistas, vascaínos, tricolores e botafoguenses concordam com tal afirmação? Dificilmente...

Ainda no Maracanã, Pelé, em um jogo válido pelo Torneio Rio-São Paulo de 1961, após driblar seis jogadores do Fluminense, fez um dos mais memoráveis gols de sua carreira, inspirando o ainda jovem repórter esportivo Joelmir Betting a cunhar a posteriormente famosa expressão “gol de placa”, sugerindo ao jornal para o qual trabalhava que o gol merecia uma placa no estádio. Craque da palavra, Joelmir, anos após, diria: "Nunca fiz um gol de placa, mas fiz a placa do gol". E tudo isso diante do Fluminense...

Foi também no Maracanã que o ‘‘Atleta do Século’’, polêmicas à parte, marcou o seu milésimo gol, em 1969, em partida contra o Vasco da Gama. Pênalti sofrido e convertido pelo Rei. Não foi o gol mais bonito, tampouco o mais difícil. Mas foi o mais importante. Pelé se tornava o primeiro jogador profissional de futebol da história a fazer 1.000 gols na carreira. E, em mais uma oportunidade, tendo o Maracanã como palco central e um clube carioca como mero coadjuvante, o visitante faz a festa. E tudo isso diante do Vasco...

Para não dizer que não falei das flores, como diria a música do Vandré, o Maracanã também foi palco de ídolos dos quatro grandes clubes cariocas. Zico, Dinamite, Rivelino e Garrincha, para ficar apenas nesses, fizeram a alegria das multidões por gerações distintas. Mas um fato une os grandes clubes cariocas: em suas histórias, os grandes cariocas não contabilizam o “Maraca” como sendo palco de seu título mais expressivo. Pelo contrário, o estádio é havido como local de grandes frustrações, recentes ou não. “Diante do belo, o silêncio.”

E assim, comprando instantes de glórias com momentos de dolorosas e inesquecíveis desgraças, segue o futebol, como segue a vida. Em ambos, a derrota faz parte do jogo. E, longe de serem empecilho, essas derrotas, ainda que deixem máculas, são a chama vital para paixões eternas e inexplicáveis.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

"Tricolor só tem um"

"...O resto é time de três cores". Nelson Rodrigues, tricolor ilustre.

Incompreensível ou não, mas minha necessidade de auto-flagelação me incita a descrever a magnífica vitória-derrotada que a pouco presenciei (ao vivo... pela tevê).

Uma final épica com um final trágico.
Nunca imaginei que um simples jogo me pudesse comover como a um animal irracional como nos momentos que compartilhei com os 11 indivíduos que corriam atrás de uma esfera sob o olhar atento dos 80 mil presentes e dos tantos ausentes.
Não sei que motivos me levam a torcer. Simplesmente torço, vibro, grito, canto - e bebo.

Uma partida que entrará para os anais (ou com outra morfologia menos sensata) da história futebolística. Uma vitória que teve o desprazer de amargurar uma derrota histórica. Um camisa 10 que consagrou-se emplacando 3 gols numa final e desperdiçou seu pênalti.

E se não fossem os 11 marmanjos que se prostituíram aceitando 4 bolas dentro, num único e ridículo tempo de jogo;
E se não fossem o primeiro gol no primeiro minuto do primeiro jogo e nos primeiros minutos do segundo jogo;
E se não fossem a altitude do primeiro jogo, o árbitro do segundo jogo e a falta de atitude nas penalidades;
E se aquele time não tivesse derrubado mitos, lendas e tabus e calado tanta Boca...
... A decepção teria sido menor ou maior?
Foi apenas mais uma decepção num esporte tão cheio de fatores extrínsecos.

No gran finale, Palermo, o famoso pelas 3 penalidades desperdiçadas num único jogo, deu seu toque de inspiração aos nossos craques.
Essa foi minha vergonha, misturada ao orgulho de ver caras que não conheço, nem nunca conhecerei, em lágrimas por uma equipe da qual tiveram orgulho de participar, numa demonstração de "amor à camisa" nunca antes visto por minha pessoa.
Num mundo cada vez mais apegado ao capital, provavelmente eles estavam chorando pela grana que iriam receber caso vencessem a tal Libertadores. Prefiro acreditar no meu lado ingênuo e convencer-me do prazer que tiveram em estar presentes num momento sublime da saga daquele conjunto; que o mundo não está tão perdido e vendido como sempre supus.

Força, Flu. Rumo à Segundona ou à próxima Libertadores, estarei aqui, pelas três cores que traduzem tradição.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Cotas: ação compensatória ou atestado de incompetência?

Para iniciar minha participação neste blog, optei por um assunto polêmico, que pode gerar um ótimo debate (assim espero) ou ao menos produzir algumas reflexões. Assim me darei por satisfeita. Ouvi uma notícia sobre o sistema de cotas e não agüentei deixar isso passar despercebido.

A notícia foi a seguinte: “A Comissão de Educação do Senado aprovou, nesta terça-feira, um projeto que reserva vagas de universidades federais para estudantes de escolas públicas. Terão preferência, de acordo com o projeto, os que se declararem índios e negros.
Segundo o projeto, 50% das vagas em universidades federais e instituições públicas de educação profissional e tecnológica serão reservadas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino fundamental em escolas públicas. Além disso, dentro da cota, devem ser incluídas vagas específicas para negros, pardos e índios de forma proporcional à população do estado onde fica a instituição; e pessoas com deficiência, independentemente de virem do ensino público. [...]”
(fonte: http://jg.globo.com/JGlobo/0,19125,VTJ0-2742-20080701-324799,00.html )

Considero o fato descrito um atestado de incompetência do governo na área de educação pública. O IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) é a prova disso, no qual a média dos alunos do ensino médio de escola pública no ano de 2007 foi de 3,2. A deficiência do ensino não é novidade pra ninguém, porém, se houvesse um ensino de qualidade, para o qual pagamos uma pesada carga tributária, não precisaríamos de ações compensatórias do governo. A questão é: até quando nos contentaremos com esse tipo de ação? Na verdade, o que precisamos é de investimentos para o ensino público, resultando em melhores condições de trabalho tanto para os professores, quanto para o alunado, para só assim chegarmos a uma concorrência igualitária, independente de etnia, condição social e etc.

No que se refere às cotas raciais, a situação piora, pois temos no Brasil um elevado grau de miscigenação, o que dificulta muito em determinar quem é ou não negro. É sabido que a péssima situação social dos negros é um fato histórico, onde até 1970, 90% dos negros eram analfabetos, porque após a abolição da escravidão, o Estado os abandonou, ao contrário do que fizeram com os imigrantes. Mas o que realmente dificulta o ingresso do jovem na universidade é o fato de ser pobre e não negro.

É aí que lhe pergunto: e o pobre branco? O pobre, seja ele negro, branco, ou de qualquer etnia não consegue uma boa base escolar. Os favorecidos com o sistema de cotas terão que fazer um esforço para que atinjam um nível que lhes permita avançar no curso. A adoção das cotas é uma medida que servirá para degradar o nível das universidades públicas e que não vai resolver séculos de discriminação econômica e racial.

“Com o projeto de lei, o governo se parece com o construtor bem intencionado que assume um prédio: sob o pretexto de consertar as paredes (Ensino Médio), danifica o telhado (Ensino Superior), sem se importar com a fundação (Ensino Fundamental), que está bastante comprometida.” (Jacir J. Venturi). Se o Brasil é um país de todos, e esses todos são iguais perante a lei, então eles merecem as mesmas oportunidades, começamos pelo direito à educação, de preferência de qualidade. Pensando cada vez mais nos jovens que certamente serão o futuro do país. Só espero que eles sejam pensantes e tenham um olhar aguçado e, acima de tudo, crítico.

terça-feira, 1 de julho de 2008

O medo é fato, retrato da nossa vida real.


Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia
O medo nos leva a tudo, sobretudo a fantasia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia
Nas grandes cidades de um país tão violento
Os muros e as grades nos protegem de quase tudo
Mas o quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido
(Muros e Grades – Engenheiros do Hawaii)

Atire a primeira pedra quem nunca sentiu medo na vida.

Medo do escuro, medo da prova final de matemática, medo de voar de avião, medo da morte. Esta palavra representa a reação do nosso organismo a uma situação que pode se caracterizar em uma ameaça. O medo é inerente a cada um de nós. Existem as diversas intensidades do medo, que podem variar de uma leve ansiedade ao pavor, à fobia. Mas não adentremos na questão científica do assunto...

Estamos presenciando na atualidade uma situação de violência que assusta a sociedade, em sua maioria acostumada a ver muitos destes casos mais bárbaros em filmes ou em guerras, pela televisão.
Os jornais mostram todos os dias tiroteios, assaltos, assassinatos por vingança, discussões, por alguns trocados ou mesmo sem motivo algum, pais que matam os filhos e vice-versa, brigas de torcidas, guerras.

Fala-se em caos, desordem; enfim, todas estas circunstâncias, as atrocidades cometidas pelos homens, acabam provocando um medo do mundo, mas não o mundo como sendo o planeta, e sim todo o universo criado e desenvolvido pelo homem. Um medo do meio social, medo do outro.
Sendo o medo identificado pela psicologia como um estado de alerta decorrente de uma situação de ameaça, este medo do outro representa um estado de alerta perante os demais cidadãos.

Acontece que este estado de violência já tomou uma proporção tão devastadora, que o simples fato de andar sozinho à noite pela cidade se torna um perigo mortal. A consciência disto está presente em cada um de nós, e é daí que vem esse medo de quando outro indivíduo se aproxima quando estamos no ponto do ônibus, às 8 da noite. Fato é que este outro infeliz também está assustado,com medo de se aproximar muito de você aí, parado.
Além do que se vê na televisão ou nas ruas, a violência chega a nossa casa e intensifica ainda mais o nosso medo do mundo.

Um grupo de amigos, todos adolescentes, estão sentados em frente à casa de um deles, a conversar, numa noite qualquer, por volta de 9 horas, quando do nada aparecem dois sujeitos armados com revólver e os assaltam. Na saída ainda ameaçam de morte um deles. Em algum outro caso, um dos adolescentes mais exaltado poderia se alterar para o lado do assaltante e tomar um tiro, quem sabe fatal.
Estas pessoas que estavam ali, aparentemente tranqüilas, aproveitando seu tempo livre na calçada da rua em que moram, vão passar a estar sempre em estado de alerta, com medo de quem está passando pela rua (e se sentirem coragem para estar pela rua naquele mesmo horário). Vem o isolamento, a sociedade cada vez mais trancafiada e enclausurada, pessoas cada vez mais dentro de casa, com medo de abrir o portão e ser assaltada, estuprada, violentada.

Ao ver tudo isso acontecendo ao meu redor, com meus amigos, na casa ao lado, no bairro, na cidade, no país, fico cada vez mais pessimista em relação a uma possível melhora nas relações humanas, nas condições de respeito à vida, à dignidade. Falamos do governo, porque não faz nada, mas que governo? Qual é o verdadeiro governo? Aquele que se encontra num palácio, cercado de segurança, isolado do país, de todos? Ou o governo que se encontra instalado no alto dos morros, que tem suas leis, sua abrangência, seu poder real? Quem sabe o governo individualista... esse que faz de lei fundamental o dito “cada um por si”?

Sinto que os homens estão se degenerando, se destruindo em todos os aspectos. Ao mesmo tempo, estamos nos fechando para nós mesmos, com medo do mundo, buscando segurança, paz.
Não vejo um final feliz para a história desse mundo. Sinto-me cada vez mais agredido pelo que vejo e presencio no dia-a-dia dos dias de hoje. Espero que minha angústia seja somente pessimismo, mas o rumo das coisas não indica bons resultados.

Espero estar equivocado.

Um Olhar para as Artes: convite à reflexão

“Pensar é estar doente dos olhos”, disse Alberto Caeiro, um dos heterônimos do genial poeta português Fernando Pessoa. Certamente, ainda não nos demos conta de que todas as coisas belas e maravilhosas do mundo sejam filhas da doença. Nesse sentido, o homem cria a beleza, nas suas mais diversas formas de manifestação, numa espécie de tentativa de remediar a sua doença, ou seja, um bálsamo para o seu medo de morrer.

Alguém já parou para pensar se, por algum acaso, as criações fossem fruto das pessoas que gozam saúde perfeita? O mundo, assim sendo, seria uma plena monotonia, mesmice chata. Por que haveriam de criar? A criação é fruto de sofrimento. Assim, os olhos do poeta tinham que estar doentes porque, se não estivessem, o mundo seria mais pobre e mais feio. Porque os olhos de Alberto Caeiro estavam doentes, um poema foi escrito e, por meio dele, temos a alegria de ler o que o poeta escreveu.

Há quem pense, como é o caso do poeta Heine, que foi para se curar de sua enfermidade que Deus criou o mundo. “A doença foi a fonte do meu impulso e do meu esforço criativo; criando, convalesci; criando, fiquei de novo sadio”, seriam as palavras de Deus, segundo Heine.

E por qual razão, perguntará o leitor, faço essa abordagem inicial? Antes de tudo, ainda bem que as palavras (e, por conseguinte, os textos) dialogam, têm vida, “(...) saltam, se beijam, se dissolvem,/No céu livre por vezes um desenho,/São puras, largas, autênticas,/ indevassáveis.”, como diria Drummond, em ‘Consideração do poema’. E digo isso exatamente porque, após a leitura do brilhante texto “Vida de cão (em clima de despedida)”, do nosso colega Taiguara, suscitou-me um hábito muito comum em sala de aula: provocar uma necessária reflexão.

“Provocar o quê?”, perguntaria um desatento leitor. À busca de possíveis respostas, emerge o fato de que, seja cercado de inúmeros amigos, os quais, muitas vezes, eram transformados em parceiros musicais, seja acompanhado do “cachorro engarrafado”, ou ainda com a união de tudo isso, a poesia se faz arte em Vinícius de Morais através de um olhar diferenciado, doente, como chamamos até aqui, para a realidade circundante. A esse olhar doente, Vinícius chamou de tristeza, palavra em cujo campo semântico podem ser aglomeradas tantas outras motivadoras de várias obras-primas da nossa poesia/música brasileira, sendo algumas delas sutil e caprichosamente pinceladas no texto de Taiguara.

Nessa perspectiva, entendendo a arte como a concebe mestre Alfredo Bosi, para quem, “a criação artística é um fazer, um conhecer e um exprimir” e, para tal reflexão, observando a arte enquanto uma projeção de vida interior que vai do grito (observação ‘doente’, particular e distorcida da realidade) à alegoria, cabe indagar: o que será da arte mediante os valores da sociedade atual?

Assim, diante de uma sociedade doente, não dos olhos, mas da mente, a arte, em todas as suas representações, agoniza. Pais torturam, molestam e matam seus filhos. Representantes públicos (públicos? Públicos sim, porque é sempre pública a origem do dinheiro com que engordam, cada vez mais, suas generosas contas bancárias) estão envolvidos em mais escândalos e/ou preocupados com os conchavos das próximas eleições. Pessoas cada vez mais especialistas de fatos mínimos e ignorantes de valores máximos! Não há como não lembrar Manuel Bandeira, em ‘Rondó dos Cavalinhos’:

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minhalma — anoitecendo!

Ao ver a sociedade consumir vorazmente os lixos culturais, seja em forma de música (à exceção das “figurinhas carimbadas” canônicas, alguém consegue encontrar alguma música que coadune letra e melodia plausíveis?), cinema (exceções, a meu ver, aos filmes de Almodóvar e outros muito raros), televisão (a explicitação máxima da nossa mazela cultural) ou literatura (chega das baboseiras de Paulo Coelho e do gênero de auto-ajuda!), confesso que ganho ânimo para finalizar projeto antigo: o PENICO (Programa Educacional Nacional de Imbecilização Coletiva). Destinado ao auxílio dos educandários brasileiros, o PENICO, literalmente, iria, inicialmente, acolher os dejetos de milhares que são tragados pela corrente da mais nefasta ignorância e alienação coletiva, além de facilitar o trabalho da escola que, cada vez mais, não cumpre o seu papel central de formar cidadãos críticos e conscientes de uma realidade, alienando-os sempre mais.

Brincadeiras à parte, recordo-me de um episódio que vivenciei, certa vez, em sala de aula. Dizia, em uma analogia um tanto quanto simplória, que a poesia e uma cédula de dinheiro se diferenciam, dentre outros aspectos, uma vez que ambas têm o papel enquanto matéria-prima, no valor que possuem para a nossa sociedade plenamente utilitarista. Atentamente, uma aluno ponderou: “Ninguém vive de poesia, professor. Ninguém faz feira com um poema, por mais que as pessoas gostem dele!”. Diante do silêncio da turma, que, tacitamente, esperava de mim alguma resposta ou comentário, não deixei de dizer à aluna que, numa visão pragmática, ela não estaria equivocada. Apenas ponderei com algumas questões aparentemente bobas: “Você está satisfeita com o mundo tal qual se mostra a todos?”, “Você consegue entender certos fenômenos que ocorrem à sua volta?” e, finalmente, “Você se vê capaz de transformar uma ou a sua realidade?”.

Antes de qualquer esboço de resposta, convidei a todos para ler um fragmento estupendo do poeta e ensaísta mexicano Octávio Paz, intitulado ‘O caracol e a música’:

A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. [...] Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo[...]

Após a detida leitura, percebi que algo havia mudado no olhar daquela jovem, que tão incisivamente tinha comentado o valor menor da poesia diante do dinheiro, mola-mestra do mundo capitalista. Mesmo sem emitir qualquer resposta, ao continuar da aula e, sobretudo, nas aulas seguintes, percebi que seus olhos haviam adoecido. A realidade, para aqueles olhos, já não era mais a mesma.

Assim, caro leitor, são esses olhos doentes, cada vez mais raros nos dias atuais, que podem (e devem) fazer com que a arte resista, tal qual a flor de Drummond, em ‘A flor e a náusea’, a qual, não obstante todas as adversidades( o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio), venceu:

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

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LAPADINHAS

A quem ainda não se habilitou a deixar seu texto no nosso blog, cabe conferir o brilhante poema do genial Paulo Leminski:

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?


· A eleição de Roberto Dinamite, para a presidência do Vasco da Gama, e a conseqüente derrocada do deplorável dirigente Eurico Miranda (arg!) fazem com que o futebol nos ensine algo absolutamente alentador: a democracia, apesar de tudo, ainda vale a pena. Vamos ver se agora a sina do “vice” vai embora juntamente com o “Euvírus se manda”! Força, Vasco!

· O título da Espanha na UEFA-Euro 2008, derrotando a sempre favorita e forte seleção alemã na grande final, traz um fio de esperança ao amante do futebol: é possível sim ser campeão sem jogar de forma truculenta e, por vezes, irracional, como fazem Ballack e seus companheiros. Com um futebol que não chegou a empolgar tanto quanto o da Holanda na fase inicial, mas com muita técnica e com o talento de alguns jogadores, a “Fúria” acalenta muitos corações que amam e gostam do verdadeiro futebol e deixa a sensação de que a Copa de 2010 promete. Resta saber se a “seleção” de Dunga chegará lá.

· E a “Lei Seca”, hein? Segundo José Simão, o presidente Lula assinou porque só anda de motorista. Verdade pura! Pura? Ôpa!... Não há dúvidas de que é uma excelente iniciativa. No entanto, resta saber se vai ser igual para todos! O tempo nos dirá!

· Finalizando, peço permissão aos colegas e transcrevo o poema abaixo, escrito por um aluno da APAE, chamado, pela sociedade, de excepcional. Excepcional é a sua sensibilidade! Ele tem 28 anos, com idade mental de 15. Se uma pessoa que encontra as barreiras que ele encontra acreditatanto no amor, por que a maioria das que se dizem 'normais' procura,ao contrário, negar sua existência? Vale a pena ler e refletir!

PRÍNCIPE POETA (Alexandre Lemos - APAE)
Ilusões do Amanhã
'Por que eu vivo procurando um motivo de viver,
Se a vida às vezes parece de mim esquecer?
Procuro em todas, mas todas não são você.
Eu quero apenas viver, se não for para mim que seja pra você.
Mas às vezes você parece me ignorar, sem nem ao menos me olhar,
Me machucando pra valer.Atrás dos meus sonhos eu vou correr.
Eu vou me achar, pra mais tarde em você me perder.
Se a vida dá presente pra cada um,o meu, cadê?
Será que esse mundo tem jeito?
Esse mundo cheio de preconceito.
Quando estou só, preso na minha solidão,
Juntando pedaços de mim que caíam ao chão,
Juro que às vezes nem ao menos sei, quem sou.
Talvez eu seja um tolo,Que acredita num sonho.
Na procura de te esquecer,Eu fiz brotar a flor.
Para carregar junto ao peito,E crer que esse mundo ainda tem jeito.
E como príncipe sonhador...
Sou um tolo que acredita, ainda, no amor.'