segunda-feira, 28 de julho de 2008

As Raposas e as Uvas

Como isso aqui ta parado, posto esse texto meio antigo (donde veio a frase de subtitulo do blog (xinguem Sidney)), mas deu-se o início das eleições, momento propício.
***

"Um caminhão de eleitor
com os voto tudo vendido,
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior"
(Jessier Quirino - Paisagem de Interior)


A multidão apaixonada vibra a cada nova frase sem nexo. O locutor, em cima de um pau-de-arara travestido de palanque, acena, agradecendo os uivos da platéia com gestos brandos de garra e confiança enquanto encena seu monólogo, amparado num vocabulário pomposo.

A cada repetição de "ética" ou "combate à corrupção", novos gritos, estridentes, ensurdecedores, delirantes. Hasteiam suas bandeiras unicolores, em um gesto de gratidão para com aquele líder nato que tirar-lhes-á da mesmice miserável dos tiranos antecessores.

Do outro lado da cidade ou do país, uma mera cópia: multidão, grito, líder, bandeira. Mudam personagens, cores e cenários, ficam os modelos estereotipados.

Poderia ser a história de qualquer eleição, escolha uma. Representa unicamente a capacidade de discernimento de um povo semi-analfabeto, encantado facilmente com cores, símbolos, líderes e palavras "nunca antes" proferidas, arrastados como rebanho que são ao curral eleitoral a que se acostumaram, se acomodoram, se afeiçoaram.

Não os culpo. Não diferenciam propostas, programas e promessas. Vêem aquilo que precisam ver, querem ver: faixas coloridas, palavras bonitas e, de preferência, um bom pão e circo - eufemisticamente chamado "showmício".

Como diz meu velho pai-aço, "tem gente que tem fé demais e gente que fede menos". Eu que não creio, tenho apenas fé. Fé de que um dia... Ah, um dia há de chegar o dia em que o dia-a-dia vai fazer essa gente entender que hão de vir melhores dias... que se pode aprender a analisar, opinar, criticar, julgar.
Se pode esquecer o amor por descendentes oligárquicos de uma politicagem caduca, julgar propostas de governo e deixar de lado paixões a grupos políticos que se perpetuam ou se revezam no poder.

Talvez sejam mandamentos inúteis, utopia adolescente de quem quer mudar o mundo sem sair da frente do teclado. Talvez seja a simples constatação do que acontecerá este ano e em trocentos vindouros.

Gente Humilde (Garoto/Chico Buarque/Vinicius de Moraes)
"E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar"

terça-feira, 15 de julho de 2008

Limites para aparências


O sentimento inicial ao escrever é receio. Receio?Pois é...receio de não ser compreendida porque geralmente costumo temer o desconhecido, mas prefiro chamar toda essa confusão interpretativa de instinto de sobrevivência, soa melhor que receio! E é sobre isso que eu gostaria de falar: mudanças superficiais para encobrir medos, ódios, amores ou quaisquer outros sentimentos e vontades.
Não seria mais fácil explicitar tudo? Seria, não fosse o pensamento dos outros, a reação dos outros, a opinião dos outros, os outros, os outros...sempre eles, por eles e para eles.Às vezes extrapolamos nosso senso crítico, nossos limites e até mesmo nossos princípios para sermos bem-quistos, bem-vistos e bem-amados pelos outros.
Sendo você constituído do que pensa e sente, a partir do momento que esses sentidos e capacidades são modificados para não gerarem comentários no grupo que você está incluso, seu “eu” também é modificado, e percebendo ou não, você muda de opinião, muda conceitos, enfim, você muda.
Mas se é “de mudanças que se vive à vida”, a influência quase imperceptível dos demais na sua rotina não deveria ser tida como algo maléfico ou sobrenatural, certo?
Nem sempre!Para tudo há um limite, se formos aceitando constantemente essas “influências” externas, corre-se o risco de perder autonomia sobre si mesmo e tornar-se uma mera marionete que age coordenado por...Outros.
Em contrapartida, atualmente saber agir e pensar em grupo e por um grupo passa a ser uma peculiaridade de poucos, e essa característica pode levar ao destaque profissional e pessoal. Mas não pense que a fórmula do sucesso é incorporar um espírito altruísta e sair por aí pensando somente no coletivo. Tendo um aspecto positivo sempre um negativo para equilibrar a balança da vida, é necessário levar em consideração o limite sutil que existe entre aceitar opiniões alheias e submeter-se a elas sem avaliação prévia, pelo simples fato de parecer democrático e assim ser aceito.Às vezes é bom (leia-se: necessário) defender ardentemente opiniões e atitudes, afinal, já dizia um antigo ditado “Quem segue a maioria nunca estará à frente dela”, para ser (digo ser, não parecer) sincera, não recordo a autoria desse ditado,talvez Voltaire, mas o que sei é que ele condiz com o tema e me trás a continuação de uma reflexão: sociedade Maria Vai-com-as-outras.
A influência social no comportamento das pessoas é inserida de maneira tão simplória que as mesmas adquirem modos coletivos de pensar e agir que resultam em uma única questão: parecer para agradar.
Não estou sugerindo que a partir de agora todos os seres pensantes do planeta revoltem-se com hábitos pré-estabelecidos e partam para uma possível “Guerra Moral”, na verdade o que pretendo mostrar com tudo isso é que a divergência de opiniões é um principio de sabedoria, porque somente analisando e criticando com fundamentos podemos avaliar a melhor atitude a ser tomada e valorizar a mesma para assim contribuir para o crescimento e melhoria de todos e para todos. Por isso o receio de não ser compreendida!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Brasileiro, mas nem tanto

Nunca tive com a bola grande intimidade. E não falo só de futebol, mas de qualquer esporte que exija sua presença. O máximo de contato que tivemos foi nos jogos de queimada, e tenho ainda a leve impressão que isto se deu muito mais pela infante habilidade de correr e esquivar do que por qualquer outra coisa.

Das poucas partidas de futebol que participei na infância (é impensável utilizar o verbo jogar), ficaram na lembrança muitos risos, a estranha sensação de estar no lugar errado e dolorosos encontros com a bola, o que evidencia nossa falta de afinidade.

Confesso, porém, que já estive muito mais próximo do universo futebolístico do que hoje. Era torcedor do Palmeiras, não desses que discute e dá palpite na escalação do time, mas acompanhava os resultados, assistia aos jogos. (Ainda lembro a final da Copa Mercosul, estava deitado numa rede vendo o meu time, que chegou a ter três pontos de vantagem, perder o título para o Vasco da Gama. Terminado o jogo, nada de revolta ou lágrimas. Desliguei a TV e fui dormir. O que mais eu poderia fazer?) Mas o futebol há muito não me atrai. Acho que a última vez que assisti a um jogo completo foi durante a Copa do Mundo da Alemanha.

Não sei o que motiva tanta idolatria ao futebol. Mas acho interessantíssimo o fato de uma invenção inglesa levantar tanto a auto-estima do brasileiro. O futebol transcende questões políticas, econômicas e sociais. Em luxuosos campos de grama sintética ou no meio da rua, com os pés sujos de lama tocando a bola remendada, é o futebol que alegra o povo. Mais do que o samba, se duvidar, mais do que o sexo.

Parece faltar Brasil pra tanto futebol! Falta água, esgoto, comida, escola, vacina; falta saúde! Mas isso não importa, futebol não vai faltar.

É com estranheza que observo a defesa emocionada das cores do time, as promessas em dia de decisão do campeonato, a comemoração do gol, as lágrimas... Deve me faltar o gene da bola. Por instantes, duvido ser de fato brasileiro (acho que meu DNA é mais parecido com o dos cingaleses). Mas recupero a razão ao lembrar que o que define a nacionalidade não são as paixões nacionais.

Tomara que, contrariando o ditado popular, quando morrer e for pro céu, eu não encontre Deus fazendo embaixadinhas...

terça-feira, 8 de julho de 2008

Futebol: paixão nada pessoal.

Houve um comum acordo aqui entre o pessoal do blog que estabeleceu que iríamos falar sobre futebol na semana passada. Por alguns probleminhas com meu computador aqui, não pude postar na semana passada, por isso meu texto vem com um atraso...

Bem... opinião própria, eu nunca vi um sentido maior no futebol além do simples fato de 22 indivíduos correndo e tentando enfiar a bola em uma trave, pra depois todo mundo gritar “GOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLL”.

Sempre fui “diferente” para algumas coisas que são comuns à maioria das pessoas da família, da sociedade. É uma questão de gosto; eu tenho gostos que às vezes fogem à regra geral. Não sou desses excêntricos malucos que gostam de comer de cabeça pra baixo ou namorar com homens e mulheres; só não vejo muita “graça” em algumas coisas que as pessoas idolatram, entre elas o futebol: a paixão do brasileiro.
Não me perguntem por quê. Creio que não é o caso do ditado “gosto não se discute”, pois se discute sim; eu simplesmente não consigo me atrair por futebol. Na verdade detesto muito do que se relaciona a isso (as brincadeiras, as discussões, as atuais brigas entre torcidas, enfim, tudo).

Só que meu interesse não é dissertar sobre meu desgosto pela coisa, mas ressaltar uma curiosidade minha sobre um fato comum a este esporte, que é o fato de o torcedor se tornar obsessivo (claro que por conta da “paixão” pelo futebol), apaixonado, um integrante do time adorado. E este fato provoca características que creio ser peculiar a este esporte.
Falo do contexto nacional, pois é o único com o qual tenho o mínimo contato. Não é tão comum vermos no nosso país um torcedor de vôlei tão fissurado no esporte a ponto de chegar a brigar pelo time, ou um indivíduo que morreria pelo seu time de handebol.

Pretendo não adentrar nas questões da cultura ou das relativizações.

Vamos direto ao ponto:

Meu pai: cidadão de 42 anos, que mora em Campina Grande – PB e torce pelo time local Treze, vulgo Galo da Borborema.

Eu não entendo o motivo (acho que Freud deve explicar), mas o que faz este envolvimento ser tão intenso com certeza tem um grande poder.
Jogo Treze X Campinense, clássico na cidade, decisão do Campeonato Paraibano. O time pelo qual o meu pai torce perde. Também, nem tinha lá tantas chances de vencer, ele nem estava, pelo que me falou, tão esperançoso ou animado com uma possível vitória, mas nos últimos momentos antes da partida, decide ir ao campo. E vai cantando, todo feliz, feito aposentado em dia de pagamento.

Seis e pouco da noite chega em casa...

Cara vermelha, fechada. Um “oi” seria demais naquele momento. Nada seria pior do que a derrota do seu time. Mas o Galo teria de vencer por dois gols de diferença!!! Tanto faz, a esperança do torcedor parece ser infinita (quem dera o brasileiro fosse tão cidadão brasileiro quanto torcedor de futebol).

Acho que admiro tanto fervor, tanta emoção, mas ao mesmo tempo detesto conviver com domingos recheados de futebol.
Não entendo o que realmente provoca tantas sensações e sentimentos por algo como o futebol, a verdadeira “magia” da coisa.
Mas também se levarmos em conta a história, veremos que os tempos trazem consigo as paixões que estarão inerentes às sociedades. Sejam as guerras, a política, a filosofia, tudo varia com o tempo, cada qual em seu período mexe com as emoções da sociedade (quem dera o futebol fosse tão carregado de valor para uma sociedade quanto a política ou a filosofia).

Pois bem... diferentemente do que já falei por aqui do lixo cultural, quando disse que no caso das músicas nojentas eu tinha tudo contra quem gostava, fugindo à regra do dito popular, em relação ao futebol, eu realmente não tenho nada contra quem gosta. Só busco esclarecimentos para minhas inquietações sobre o assunto.
Será legal se cada um dos que virem a ler meu texto, colocar seu ponto de vista sobre o futebol, sobre o que realmente move toda esta emoção (se é que há uma explicação). Quem sabe não progrido em relação ao assunto?
É bem mais produtivo quando ouço as opiniões ao invés de xingamentos por conta do meu posicionamento.
Por que você gosta tanto do futebol? O que te faz ter tanto amor por este esporte? Qual o sentido do futebol, por detrás dos pontos e classificações e vitórias e troféus?

sábado, 5 de julho de 2008

As dores do belo

“Diante do belo, o silêncio.” O pensamento do mestre Rubem Alves talvez possa explicar por que grandiosos espetáculos humanos tenham seu desfecho marcado pela dor do silêncio. Digo talvez porque o pensamento anterior refere-se ao fato de que as palavras tornam-se insignificantes diante de algo que deixe os olhos em estado de graça, mediante a beleza explicitada. Assim, o belo requer o silêncio.

“Os deuses vendem quando dão/ Compra-se a glória com a desgraça...”, sentencia Fernando Pessoa em ‘Mensagem’. Os ‘deuses do futebol’ ofertaram ao público brasileiro (carioca, em especial) o estádio Mário Filho, o Maracanã, um templo em que, por inúmeras vezes, multidões entoaram e ainda entoam diversificadas canções de amor aos seus clubes e/ou à sua seleção e, por outras vezes, amargaram a mais injusta, inexplicável e sofrida derrota.

O que dizer da fatídica derrota da seleção brasileira, com um Maracanã beirando as 200 mil pessoas, na final da Copa de 50, diante do Uruguai? Ainda hoje o ‘Maracanazo’ é considerado o ápice de nossas tragédias esportivas. Será que flamenguistas, vascaínos, tricolores e botafoguenses concordam com tal afirmação? Dificilmente...

Ainda no Maracanã, Pelé, em um jogo válido pelo Torneio Rio-São Paulo de 1961, após driblar seis jogadores do Fluminense, fez um dos mais memoráveis gols de sua carreira, inspirando o ainda jovem repórter esportivo Joelmir Betting a cunhar a posteriormente famosa expressão “gol de placa”, sugerindo ao jornal para o qual trabalhava que o gol merecia uma placa no estádio. Craque da palavra, Joelmir, anos após, diria: "Nunca fiz um gol de placa, mas fiz a placa do gol". E tudo isso diante do Fluminense...

Foi também no Maracanã que o ‘‘Atleta do Século’’, polêmicas à parte, marcou o seu milésimo gol, em 1969, em partida contra o Vasco da Gama. Pênalti sofrido e convertido pelo Rei. Não foi o gol mais bonito, tampouco o mais difícil. Mas foi o mais importante. Pelé se tornava o primeiro jogador profissional de futebol da história a fazer 1.000 gols na carreira. E, em mais uma oportunidade, tendo o Maracanã como palco central e um clube carioca como mero coadjuvante, o visitante faz a festa. E tudo isso diante do Vasco...

Para não dizer que não falei das flores, como diria a música do Vandré, o Maracanã também foi palco de ídolos dos quatro grandes clubes cariocas. Zico, Dinamite, Rivelino e Garrincha, para ficar apenas nesses, fizeram a alegria das multidões por gerações distintas. Mas um fato une os grandes clubes cariocas: em suas histórias, os grandes cariocas não contabilizam o “Maraca” como sendo palco de seu título mais expressivo. Pelo contrário, o estádio é havido como local de grandes frustrações, recentes ou não. “Diante do belo, o silêncio.”

E assim, comprando instantes de glórias com momentos de dolorosas e inesquecíveis desgraças, segue o futebol, como segue a vida. Em ambos, a derrota faz parte do jogo. E, longe de serem empecilho, essas derrotas, ainda que deixem máculas, são a chama vital para paixões eternas e inexplicáveis.